Em memória de

Carmen Santos

01/03/1967
12/05/2023

"Amor sem fim"

História
Memórias
Áudios

Carmen Santos

Crescer ao lado da minha mãe foi como viver dentro de um abraço constante. Eu lembro dela em todos os cantos da minha infância, na cozinha, com o cheiro de café fresco de manhã cedo, me chamando pra acordar com aquela voz calma; no portão, esperando eu voltar da escola; nas noites em que eu fingia dormir só pra sentir ela me cobrir e fazer um carinho no meu cabelo. Ela não era perfeita, mas era exatamente o que eu precisava. Tinha dias em que ela estava cansada, preocupada, mas mesmo assim dava um jeito de estar ali. Eu só fui entender isso depois de mais velha, o quanto ela segurava o mundo dela pra não deixar o meu desmoronar. Minha infância tem o rosto dela em tudo: nas risadas sem motivo, nas broncas que eu achava injustas, nos conselhos que eu ignorava… e que hoje eu repito quase sem perceber. E então o tempo passou. Ver a minha mãe se tornar avó foi uma das coisas mais bonitas que já vivi. Era como se um pedaço da minha infância voltasse, mas ainda mais leve, mais doce. Ela pegando meu filho no colo… o jeito que os olhos dela brilhavam… parecia que o tempo tinha parado ali. Ela fazia com ele o que fez comigo, mas com uma paciência ainda maior, como se já soubesse exatamente o valor de cada momento. Cantava as mesmas músicas, contava histórias parecidas… e eu ficava ali, olhando, tentando guardar cada segundo. Tinha algo diferente nela como avó. Era amor sem pressa. Sem a correria que a vida exige de uma mãe. Era só presença. Os melhores momentos não eram grandiosos. Eram simples: um almoço em família, ela rindo à toa, meu filho correndo pela casa enquanto ela observava com aquele olhar cheio de orgulho. Era ali que eu entendia… aquilo era tudo. Hoje, quando penso nela, não lembro só de uma mãe. Lembro de uma vida inteira compartilhada. De alguém que foi meu colo, minha base… e depois virou o colo do meu filho também. E talvez seja isso que mais dói e mais conforta ao mesmo tempo: saber que tudo o que eu sou, e tudo o que meu filho recebe de amor, tem um pouco dela. Porque viver ao lado da minha mãe não foi só crescer. Foi aprender, sentir… e, acima de tudo, amar de um jeito que fica pra sempre.

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