Em memória de
Emanuelle Teixeira
"Minha pequena menina"
"Minha pequena menina"
A minha filha era pequena, mas ocupava a casa inteira. Ela espalhava brinquedos pela sala, fazia perguntas que eu não sabia responder e ria de coisas simples, como se o mundo fosse sempre bonito. Eu nunca pensei que aprenderia tanto com alguém tão pequena. Quando falaram a palavra leucemia pela primeira vez, eu senti um frio que nunca tinha sentido antes. Eu ouvia os médicos falando, mas parecia que o som vinha de longe. Eu só conseguia olhar pra ela ali do meu lado, segurando meu dedo, sem entender nada. E eu também não queria entender. Eu só queria que fosse um engano. A nossa vida virou hospital. Cheiro de remédio, cadeira desconfortável, noites mal dormidas. Eu aprendi a reconhecer o barulho das máquinas, aprendi a sorrir mesmo quando tinha acabado de chorar no banheiro. Porque ela me olhava procurando segurança. E eu precisava ser o porto seguro dela, mesmo estando afundando por dentro. Teve um dia que ela perdeu o cabelo. Eu achei que aquilo fosse me destruir. Mas ela passou a mão na cabeça e deu um sorrisinho tímido. Eu fui pro carro depois e chorei como nunca tinha chorado na vida. Não era só o cabelo. Era o medo tomando forma. Mesmo doente, ela ainda encontrava jeito de ser criança. Pedia colo. Pedia história. Pedia pra gente prometer que quando saísse dali ia correr na praça de novo. Eu dizia que sim. Eu prometia tudo. Uma mãe promete qualquer coisa quando está tentando salvar a filha. Os últimos dias foram silenciosos. Diferentes. Eu sentia que algo estava mudando, mas me recusava a aceitar. Eu segurava a mão dela e ficava contando lembranças nossas, como se estivesse tentando convencer o tempo a voltar. Eu repetia o quanto eu amava ela. Eu repetia até a voz falhar. Quando ela se foi, eu senti como se uma parte do meu corpo tivesse ido junto. Não é só saudade. É um vazio físico. Um espaço que ninguém preenche. A casa ficou arrumada demais. Silenciosa demais. Às vezes eu escuto uma risada parecida na rua e meu coração dispara. Às vezes eu vejo uma roupa pequena em alguma loja e preciso sair rápido. A vida continua para todo mundo, mas dentro de mim existe um antes e um depois. Eu não sou mais a mesma. Eu aprendi que o amor é tão grande que dói. Que a gente pode sobreviver mesmo achando que não vai. E que uma criança, mesmo vivendo pouco, pode deixar uma marca eterna. Ela foi minha filha. Meu colo preferido. Meu maior amor. E todos os dias eu acordo tentando aprender a viver com a ausência dela.
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