Em memória de

Cecília Oliveira

02/09/2023
17/07/2024

"Minha doce menina"

História
Memórias
Áudios

Cecília Oliveira

Eu nunca imaginei que aprenderia tanto sobre o amor… e sobre a dor… em apenas dez meses. Minha filha chegou pequena, frágil, com aquele cheirinho que só bebê tem. Eu me lembro do peso dela no meu colo, da sensação de que o mundo inteiro cabia ali, entre meus braços. Cada sorriso era uma conquista. Cada som que ela tentava fazer parecia a coisa mais importante do universo. Eu vivia cansada, é verdade… mas era um cansaço feliz. Eu acordava de madrugada para amamentar e ficava olhando para ela no escuro, agradecendo por ter sido escolhida para ser mãe dela. Ela estava naquela fase linda de começar a sentar sozinha, de tentar engatinhar meio desajeitada. Batia palminha, ria com o próprio reflexo no espelho, apertava meu rosto com as mãozinhas pequenas como se quisesse ter certeza de que eu estava ali. E eu estava. Sempre estive. Até o dia em que a febre veio. No começo, parecia algo simples. Um resfriado, talvez. Bebê fica doente, a gente sabe disso. Mas tinha algo diferente no olhar dela. Ela chorava de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes. Um choro mais fraco… mais sofrido. Eu sentia no fundo do peito que não era normal. Mãe sente. E essa sensação me acompanha até hoje. Quando disseram a palavra “meningite”, eu não entendi direito. Só sabia que era grave. O hospital ficou sendo a nossa casa por alguns dias que pareceram anos. Eu segurava a mãozinha dela cheia de fios, de aparelhos, e pedia para Deus trocar comigo. Pedia para levar minha saúde, meu sono, minha vida… mas deixar a dela. Eu conversava com ela o tempo todo. Dizia que a mamãe estava ali. Que ela podia descansar. Que ia ficar tudo bem. Mesmo quando o medo já tinha tomado conta de mim, eu tentava sorrir para ela. Porque ela sempre sorria quando me via. O dia em que ela partiu foi silencioso demais. Não teve despedida do jeito que a gente imagina. Só um vazio. Um silêncio que rasgou tudo por dentro. Eu senti como se arrancassem um pedaço físico de mim. Como se meu corpo ainda fosse feito para carregar aquele peso no colo… mas meus braços estivessem vazios. Voltar para casa foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. O berço montado. As roupinhas dobradas. Os brinquedos espalhados. O cheirinho dela ainda no quarto. Eu sentei no chão e chorei como nunca tinha chorado na vida. Chorei alto, chorei baixo, chorei sem som nenhum. Chorei até não ter mais força. As pessoas dizem que o tempo ajuda. Eu acho que ele ensina a gente a respirar de novo. A dor não some. Ela muda de forma. Tem dias em que eu consigo falar dela com um sorriso, lembrando das bochechinhas, do jeitinho que ela franzia a testa. E tem dias em que a saudade me atravessa inteira, como se tudo tivesse acontecido ontem. Ser mãe não acabou quando ela se foi. Eu continuo sendo mãe. Uma mãe que não pode mais dar banho, nem preparar papinha, nem ouvir gargalhadas pela casa. Mas sou mãe de uma história de amor que existiu, que foi real, que foi intensa mesmo que tenha sido breve. Dez meses. Foi o tempo que eu tive para aprender o que é amar alguém mais do que a própria vida. E é esse amor que ainda me mantém de pé.

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